Nostradamus e a arte de prever idiotas

"As pessoas querem ser enganadas" era assim que P.T. Barnum explicava seu sucesso. O mestre da picaretagem sadia, Barnum, enganava seu público com aberrações circenses, boatos e mitos criados em cima de pessoas com anomalias, como Os Homens Selvagens de Borneo, que nada mais eram que dois anões extremamente fortes que erguiam pesos e até lutavam contra pessoas da platéia no circo de Barnum, e como você já deve estar imaginando, eram apresentados por Barnum como legítimos nativos da ilha de Borneo, na Ásia. Ele não enganava seu público, Barnum vendia entretenimento. Segundo ele, suas fraudes não prejudicavam ninguém, as pessoas pagavam pra serem impressionadas e Barnum não decepcionava e sempre entretinha seu público, seja em seus museus ou circos; ele era um homem do entretenimento, um precursor do circo moderno, e suas invenções tinham como único propósito o entretenimento, e nada mais.

Essa distinção ficou clara quando P.T. Barnum começou a desmascarar médiuns espiritas e até depôs contra um fotógrafo de fantasmas. Sim, P.T. Barnum tinha seus limites, e quando um médium cobra para receber mensagens do além, ai terminou o entretenimento e começou a balela vendida como coisa séria, e isso era repudiado até por Barnum, um cara que fez fortuna inventando bullshit, mas a diferença é que as pessoas sabiam que Barnum estava de balela, e ele não negava isso, elas consentiam serem "enganadas" por Barnum. Isso distingue Barnum dos médiuns (pagos ou não, é tudo bullshit), astrólogos, videntes, profetas e pastores, pois ele não acreditava no bullshit que vendia e vendia aquilo como bullshit, como engodo, como maneira de ganhar dinheiro, como entretenimento e nada mais.

O velho P.T. Barnum ficaria horrorizado com a quantidade de balelas vendidas hoje em dia como a mais pura e única das verdades. Dentre essas balelas uma que se destaca são as previsões de Michel de Nostradamus, ou apenas Nostradamus já que se você nasceu após o século XVI provavelmente conhece esse nome, e se nasceu no século XX já é quase um chegado do Nostra, dado que a cada catástrofe global eis que surgem idiotas afirmando que Nostradamus "previu" tal catástrofe. Será?

Nostradamus já acertou alguma previsão?

Ai existem duas escolas de pensamento: a dos racionais com senso critico e Q.I. acima de 100 pontos que dizem que NÃO, e a dos idiotas que querem porque querem acreditar em algo sobrenatural, seja na imagem de Cristo que apareceu num prato de pirão semana passada ou nos segredos de Fátima, e que dizem SIM, que Nostradamus previu a 2ª Guerra, a bomba de Hiroshima e mais um monte de coisas (ruins, sempre) e que suas previsões apontam que nosso futuro será dantesco — como se nosso presente com Lady Gaga e a volta do Marcos Mion não fosse dantesco o bastante.

Fato é que Nostradamus previu e não previu nada ao mesmo tempo. Como assim? Peguemos como exemplo a centúria que "previu" as bombas de Nagasaki e Hiroshima:

Perto dos portos das duas cidades.

Ocorrerão dois tormentos como nunca se viu antes.

Fome, peste, pessoas expulsas pela espada.

Pedem socorro ao grande Deus imortal.

Pois bem, a centúria começa dando show, afinal de contas Hiroshima e Nagasaki são duas cidades portuárias. Uau! Ponto para Nostradamus.

Na segunda linha Nostradamus continua em ótima forma, pois "dois tormentos como nunca se viu antes" se encaixa perfeitamente no contexto das bombas atômicas que nunca haviam sido utilizadas em guerras antes — ok, eu sei que foram testadas bombas similares no deserto e portanto o "nunca se viu antes" não é bem verdade, mas tudo bem, estamos falando de Nostradamus, não podemos ser literais na interpretação, a menos quando isso é conveniente, o que não é o caso da terceira linha.

"Fome, peste, pessoas expulsas pela espada"? Fome? Numa cidade que acabou de ser dizimada por uma bomba atômica, onde acabaram de descarregar 13 kilotons de energia bem no meio da sua cara, eu calculo que fome não tenha sido problema maior, pois os poucos que sobreviveram se viram obrigados a saírem dos arredores da cidade e se abrigarem em outras cidades. Mesmo em época de escassez de guerra, duvido muito que não foram acolhidos por seus compatriotas. Portanto, fome não foi consequência terrível das bombas, os poucos que sobreviveram estavam mais preocupados com câncer do que com sushi.

Peste? A menos que Oppenheimer tivesse esquecido o circo das pulgas dentro da bomba.

Pessoas "expulsas pela espada"? Oh oh oh, aqui começa a cair a máscara. Espada? Sério, espada? "Ah mas não podemos interpretar espada literalmente". Não podemos? Mas os idiotas que ganham a vida com as balelas de Nostradamus interpretam literalmente quando lhes convêm, caso da primeira linha dessa centúria, lembra? "Perto dos portos das duas cidades" foi interpretado literalmente, não por mim, claro, mas pelo pessoal que ganha a vida interpretando essas sandices de Nostradamus. Essa é uma linha completamente nonsense, espada nada tem a ver com bombas atômicas, isso lembra mais exércitos com espadas… hmmm, isso condiz com a época em que Nostradamus viveu, e é bem provável que ele estava falando sobre alguma guerra não muito distante de seu próprio tempo, século XVI, e convenhamos, prever guerras naquela época era mais fácil que gabaritar um teste da APAE.

A quarta linha da Centúria fala sobre o "grande Deus imortal". Hmm, interessante já que o Budismo é a religião predominante no Japão e não existe nenhum Deus imortal no Budismo, aliás, nem existe um Deus central no Budismo, pelo contrário, é uma religião que prega a não permanência, um conceito que é o oposto da imortalidade pregada nas religiões cristãs. Resumindo: a quarta linha é bullshit total, assim como a terceira, e também as duas primeiras. Isso ilustra bem como funciona Nostradamus: interpretações forçadas que contam com meias coincidências mas no final são elevadas ao status de premonição pura.

Como funcionam as "previsões" de Nostradamus?

Assim como tudo na vida, seja dirigir um Porsche a 300 por hora sem bater na curva e virar patê, seja pilotar um 747 ou manejar uma Uzi, "prever" o futuro requer algumas técnicas.

A primeira e mais importante de todas é o volume. Jogadores profissionais de pôquer, investidores de bolsa de valores e cunhados que pedem dinheiro emprestado sabem que pra obterem sucesso precisam de volume. Um jogador de pôquer que só joga uma mão não ganha nada, ele precisa jogar milhões de mãos, assim como um investidor na bolsa ganha muito pouco se comprar apenas meia dúzias de ações — a menos que sejam as ações de qualquer espelunca gerenciada pelo Eike Batista —, e o cunhado idem, ele precisa insistir na mendicância. O mesmo vale para os videntes que tentam prever o futuro: eles precisam fazer uma quantidade enorme de previsões e torcer para que alguma chegue próximo de um acerto. Fato é que se um vidente fizer mil previsões e errar 999 mas acertar apenas uma, pode apostar que a massa de ignorantes vai prestar atenção apenas na previsão que "se concretizou". Se o vidente for preguiçoso e só fizer meia dúzias de previsões, não vai acertar nada, porque afinal de contas um vidente consegue prever o futuro assim como eu e você, a diferença é que ele passa o dia todo escrevendo previsões. Basta uma previsão passar perto de um acerto e pronto, os imbecis coroam o cidadão como portador do vírus da premonição. Bullshit total.

Nostradamus escreveu centenas de centúrias, portanto a probabilidade de acertar algo não é tão desprezível contanto que ele siga a 2ª técnica de todo bom vidente: prever de maneira ambígua, ou então sem objetividade.

Os videntes mais espertos jamais são precisos em suas previsões, é sempre "um" artista que vai morrer, ou "um" famoso que vai enfrentar uma doença séria, nunca é Fulano ou Beltrano, sempre fica em aberto. Nostradamus é a mesma coisa, tanto que a única previsão explicita que ele fez foi a seguinte:

No ano mil novecentos e noventa e nove e sete meses

Do céu virá um grande rei do Terror

Ressuscitará o rei de Angoumois

Antes que isso ocorra Marte reinará entre eles. Boa Hora.

Quer bullshit maior que esse? Nos idos de 99 muita gente perdeu noites de sono por causa dessa centúria, hoje ela é motivo de piada. Se você é vidente aprenda com o erro épico de Nostradamus: JAMAIS, EM HIPÓTESE ALGUMA, coloque datas em suas previsões, locais ou qualquer coisa que a torne verificável. Não é lucro pra você, caro vidente, quando alguém diz: "hmmm, o pai Josnei falou que dia 15 eu ia receber aquele acerto da firma que eu trabalhava, e não veio até agora". Fique no ambíguo, fale sobre "um" ator que vai morrer, ou "um" cantor que vai ser assassinado. E eu não vou ficar mais feliz sabendo que uma dupla sertaneja vai morrer nesse ano, pois sei que pelos umas 10 duplas novas vão aparecer. Eu ficaria feliz se soubesse que algum lunático está escrevendo um livro chamado Mein Kumpf onde culpa as duplas sertanejas por todos os problemas do mundo, mas isso é outra história.

Se você leu o texto até aqui, então provavelmente não acredita nas sandices de Nostradamus (os que acreditam ainda estão consultando o dicionário pra ver o significado de "prever"), e portanto deve achar que dificilmente alguém nos dias atuais ainda acredita em Nostradamus. Uuuuu, ledo engano, ledo engano.

Pessoas como John Hogue (o meliante abaixo) faturam quantidades industriais de dinheiro escrevendo livros que interpretam a bel prazer as profecias de Nostradamus.

johnhoguer

John Hogue, um cara que ficou milionário escrevendo sobre Nostradamus.

 

“Quem são os idiotas que compram esses livros?” pergunta o leitor mais esperto, e a resposta é: milhões de pessoas. Tanto que John Hogue (o meliante acima) ficou milionário com livros que tentam convencer seus leitores que Nostradamus previu várias catástrofes como o Holocausto, Nagasaki, o 11 de Setembro e o Rebolation.

O modus operandi do livro é o mesmo de todo livro sobre interpretação de profecias: forçar a barra, forçar a barra, forçar a barra. E com as toneladas de centúrias que Nostradamus escreveu não é difícil encontrar uma meia dúzia delas que se encaixem como profecias de algum evento catastrófico e importante. E aí está o grande problema com as interpretações de Nostradamus — ou das profecias da Bíblia — pois é possível encontrarmos profecias até mesmo em poesias inócuas, ou em embalagens de biscoito, pois a interpretação de profecias só depende de um pouco de imaginação (e cara-de-pau). Duvida? Pois bem, peguemos como exemplo o seguinte trecho da música Aquarela, de Toquinho, escrita em 1983:

Um menino caminha
E caminhando chega no muro
E ali logo em frente
A esperar pela gente
O futuro está…

Sabe o que John Hogue diria sobre a estrofe acima se ela fosse uma centúria de Nostradamus? Diria que essa estrofe profetizou a queda do muro de Berlim e, por consequência, da União Soviética e seu fracassado comunismo. É sério, releia.

Quer mais? Ainda nos versos de Toquinho:

De uma América a outra
Eu consigo passar num segundo
Giro um simples compasso
E num círculo eu faço o mundo…

Se essa estrofe acima fosse uma centúria de Nostradamus? Com certeza os idiotas que perdem tempo interpretando essas sandices diriam que estamos diante da profetização da Internet!

É muito fácil transformar alguns amontoados de linhas, sejam centúrias ou até mesmo as belas poesias de Vinicius de Moraes e Toquinho, em profecias. Tudo vai da falta de bom senso e de um pouco de imaginação, e claro, de idiotas que consumam essas sandices.

Uma amostra da canastrice de John Hogue ficou evidente em 2002. Até esse ano o ESPECIALISTA em Nostradamus afirmava que o aiatolá Abu Nidal era o terceiro Anticristo — na cabeça dele Hitler e Napoleão foram os dois primeiros —, e afirmava com convicção, tanto que em todos seus livros Abu Nidal era tido como a grande Besta do Apocalipse, o cara que tinha vindo ao mundo pra nos mergulhar em trevas, tormentos, caos, música funk e o derradeiro fim dos dias. Bom, eis que em 2002 Abu Nidal, tido como o Anticristo, foi assassinado. Hilário não? É hilário o suposto Anticristo ser assassinado como todos nós um dia seremos.

O que fez John Hogue quando Abu Nidal, o suposto Anticristo, foi assassinado? Ora, achou outro Anticristo: Saddam Hussein! Obviamente a partir dali todos seus livros passaram a afirmar que Saddam Hussein era o Anticristo profetizado por Nostradamus. Bom, Saddam Hussein já virou sanduiche de vermes faz tempo e nós continuamos com nossas vidinhas de sempre. Nada de fim dos dias, de caos, de tormentos, de cavaleiros do Apocalipse andando em Harley-Davidsons. Nada. Embora a profecia de Nostradamus tenha dito que o fim dos dias chegaria 25 anos após a morte do Anticristo (no caso Saddam Hussein), então até lá nosso meliante John Hogue ainda vai faturar muito com esse assunto.

Talvez muitas pessoas consumam esse material sobre Nostradamus apenas por diversão, mas conhecendo a mentalidade do povo, eu acredito que a maioria quer buscar respostas nas profecias. Querem saber quando e como o mundo vai acabar. É a velha mania de buscar segurança num mundo inseguro, de buscar a certeza nesse mundo que mais parece uma roleta russa de tão incerto e perigoso. Ou talvez nossas vidas andem tão chatas como qualquer filme do Adam Sandler, que a maioria já quer adiantar o filme pra saber logo o final. “Seremos esmagados por cavaleiros do Apocalipse tipo aqueles do Senhor dos Anéis? Uau! Manda logo!”.

E para as pessoas que acreditam não adianta mostrar que Nostradamus errou feio em sua única previsão com data estabelecida, e também não adianta demonstrar que podemos criar profecias a partir até mesmo de poesias — quem sabe até das músicas da Eliana —, e obviamente também não adianta mostrar que o grande especialista em Nostradamus, John Hogue, sabe quem é o terceiro Anticristo assim como eu sei os números da Mega-Sena. Dado o exposto, sou obrigado a concordar que Nostradamus acertou em cheio sua maior profecia: a profecia de que os idiotas sempre existirão.

Desculpa Raul, mas você não era maluco beleza

“Some may never live, but the crazy never die.” — Hunter S. Thompson

A tarefa era bem simples: receber $300 para despesas e ir até Las Vegas cobrir o Mint 400, uma espécie de Paris Dacar no deserto de Vegas nos idos dos anos 70.

O que a maioria dos jornalistas faria? Pegaria o dinheiro, iria até Vegas, cobriria o maldito evento e no fim escreveria um artigo insosso tentando convencer seus leitores que aquela corrida de motos no deserto foi mais emocionante que sobreviver a uma Blitzkrieg.

Não Hunter S. Thompson. Não!

hunter_s_thompson Ninguém sabe direito como nasceu Hunter S. Thompson. Subproduto de uma overdose ou experiência da Sociedade Secreta Anarquista? Nunca saberemos.

Só sabemos que quando foi chamado para cobrir o Mint 400 no deserto de Vegas com $300 para cobrir suas despesas, a primeira providência de Thompson foi torrar boa parte do manancial em drogas para a viagem. Esqueça a tríade caretinha: maconha, cocaína e álcool. Falo de mescalina, éter, cocaína, LSD, tequila, rum, toda sorte de pílulas, nitrito de amila, entorpecentes vários, inibidores, estimulantes, ecstasy, anfetaminas e nem Deus sabe o que mais.

Por que diabos alguém precisaria de tantas drogas pra uma viagem a trabalho? “Quando você entra nessa de colecionar drogas, a tendência é ir até o fim”, responderia um debochado Thompson com sua Budweiser numa mão e Lucky Strike na boca.

Diferente do Rafael Ilha, Hunter S. Thompson foi um drogado útil à humanidade. Inventor do jornalismo gonzo, e considerado um dos maiores escritores americanos. Criado para entreter todos que estão indispostos demais ou mergulhados no letárgico sono da vida, Thompson mergulhou fundo nos esgotos que enojam a todos, mas que por algum motivo despertam o interesse em nós, pobres diabos, que jamais deixaremos um legado digno de tão metodicamente abarrotados que estamos do cotidiano fajuto.

Hunter S. Thompson iniciou sua trajetória delirante tentando cobrir e relatar o dia a dia dos Hell’s Angels. Sua idéia era maluca e simples: andar com aquelas bestas e documentar como era a rotina dos caras; entregar de forma limpa e asseptizada a todos os românticos interessados um pouco da sujeira de ser um motoqueiro anárquico que não respeita os ideais de Deus, família e pátria. Simples?

Thompson descobriu que os românticos que consomem essas fantasias não passam de imbecis desprovidos de bom senso quando percebeu que os Hell’s Angels não passavam de animais que estupravam mulheres, roubavam pobres comerciantes, destruíam propriedades e eram temidos até pela policia. Bandidos da pior espécie, tanto que até mesmo ele, Hunter S. Thompson, um cara com altíssima tolerância a desregrados, abandonou os Hell’s Angels e resolveu denunciar os desmandos do grupo que era visto como um grupo de “amantes da liberdade americana”, mas que no fundo não passavam de pivetes covardes em motocicletas.

Óbvio que os Hell’s Angels juraram Thompson de morte quando o livro homônimo do grupo foi lançado. Mas quem leva a sério a ameaça de covardes? Os Hell’s Angels continuaram suas vidas de marginais e despertando apenas interesse em idiotas românticos, enquanto Thompson seguiu em frente com propósitos mais condizentes com seu talento, genialidade e capacidade absurda de engendrar maluquices.

Como não foi morto e trucidado pelos Hell’s Angels, Thompson ficou com tempo de sobra pra arquitetar sua próxima sandice. “Por que diabos não me candidato a xerife de Aspen?” deve ter pensando Thompson em algum chato final de tarde enquanto bebericava a breja das cinco. E foi isso que ele fez: se candidatou a xerife de Aspen.

Thompson estava descontente com a caretice da época e por isso lançou sua candidatura a xerife de Aspen. Ser xerife era equivalente a ser prefeito, e não a ser um delegado bigodudo que toma café e come rosquinhas o dia todo.

Mostrando que tinha sido parido em outro mundo, Thompson começou sua campanha prometendo que liberaria o uso de toda e qualquer droga no condado de Aspen… humpf! Perdeu feio nas urnas!

Depois de mais esse fracasso, o comichão bateu forte e Thompson percebeu que não conseguiria mudar o mundo — leia-se transformá-lo numa Disneylândia das drogas —, mas que com seu talento de escritor daria pra se divertir tentando.

Seu próximo passo foi sua obra-prima: Fear and Loathing in Las Vegas.

“We were somewhere around Barstow, on the edge of the desert, when the drugs began to take hold.”

A idéia inicial era cobrir o Mint 400, um rally de motos em Las Vegas, mas no final Thompson decidiu ir até Vegas não para cobrir o rally mas para encontrar o Sonho Americano!

Junto de seu advogado e mentor Oscar Acosta — um cidadão mais surreal que os freaks da Oprah —, além de um porta-malas abarrotado de drogas, eis que Hunter S. Thompson narra toda sua viagem a Las Vegas de maneira jornalisticamente questionável, misturando ficção com realidade; e transformando o que era pra ser um simples artigo sobre um rally de motos num livro com mais de 200 páginas falando sobre drogas, alucinações com morcegos, répteis humanóides, seu advogado tentando se eletrocutar na banheira ouvindo Jefferson Airplane e sobre dois drogados tentando achar o sonho americano (você está rindo porque não estava no couro do editor dele), assim parindo o que todos agora chamam de jornalismo gonzo.

Fear & Loathing in Las Vegas chegou a virar filme (batizado no Brasil de Medo e Delírio em Las Vegas) com Johnny Depp em sua melhor atuação e Benicio Del Toro, também genial. Uma comédia não recomendada pra quem gosta do humor infantil que aquele amigo bobão adora fazer, e muito menos pra quem abomina a idéia de ver o mundo, nem que seja por 2 horas, pelos olhos vermelhos de um insano entupido de éter, mescalina e tequila. Para todos os demais malucos esse filme vale a pena.

Hunter S. Thompson foi maluco, vagabundo, escritor, romancista, amante das armas, celebridade e depois de velho concluiu que já bastava, quando em 2005 resolveu utilizar uma de suas armas (outra de suas paixões) e enfiar uma bala nos cornos. Talvez já estivesse de saco cheio; talvez seus projetistas já tivessem coletados os dados necessários pra produzir malucos em massa nos próximos tempos; talvez seu corpo já tivesse desenvolvido resistência a todas as drogas inventadas e as trips já não surtissem efeito, deixando Thompson sóbrio e a par das imundices do mundo, e daí nem ele aguentou. Ninguém sabe sua origem assim como nunca saberemos o motivo de sua ida. Quem se importa?

Com suas obras podemos andar na lama que habita os confins da alma humana sem sujar um dedo sequer. Ele dedicou sua vida a jamais vivê-la como os demais. Foi um devoto sagaz e militante agressivo da filosofia de vida de não viver a vida como o restante vive. Nem gênio, nem louco, e nenhum outro rótulo daqueles que inventamos na tentativa de catalogar os pontos fora da curva, os que não se encaixam em qualquer estereótipo, os que não se encaixam em qualquer descrição. Alienígena único que passou uma breve temporada entre a nossa raça em extinção, Hunter S. Thompson recusou-se a estudar nossos hábitos pra poder fazer parte de nossa tribo — azar o nosso.

E suas obras nos deixaram a impressão de que talvez a insanidade não seja apenas desculpa surrada pra quem deseja ignorar a realidade, mas sim ingrediente importante a quem pretende expandi-la.

“Deus cuide bem de mim, se não quer que eu vá parar em suas mãos.”Hunter S. Thompson (1937-2005)