Limões em limonada

O que leva pessoas a cometerem suicídio é o fato da vida ser uma BIAAATTTCHHHH! Se teu nome é Hugh Hefner é provável que ainda não atentou pra esse fato, mas acontece que a vida consegue, das maneiras menos ortodoxas possíveis, te ferrar. Sempre.

Felizmente pra maioria das pessoas isso já é fato aceito e contornável (com álcool, por exemplo), e seguimos nossa jornada de humilhações diárias impostas pela vida.

Animador é saber que existem pessoas nesse mundo que transformaram as sacanagens da vida em histórias hilárias e de sucesso absoluto, do jeito que todo palestrante de auto-ajuda sempre sonhou.

Porque se a vida te dá um tapa você retribui com uma voadora nas costas. Porque a vida adora nos sacanear, mas isso não significa que você deve ficar por baixo.

Como por exemplo…

Caso #1 — O cara que venceu o avô dos spams

Ah, os spams. Eles vivem me oferecendo Levitra, Viagra e 8 cm adicionais de pênis (o que me deixaria com incríveis 38 cm de dote, só a titulo de informação). Talvez você não saiba, mas o spam existe desde que as empresas decidiram competir pra ver quem teria a idéia mais brilhante pra transformar a vida das pessoas num inferno — claro que anos mais tarde o cara que inventou o telemarketing arrebatou o prêmio.

Nos anos 90 o spam era feito com cartas ao invés de e-mails. Quando os pobres diabos chegavam em casa e abriam a caixa do correio na espera de cartas de algum parente, ou então a resposta da Penthouse confirmando que seu conto erótico seria publicado na próxima edição, acabavam dando de cara com um monte de cartas publicitárias e propostas de negócios incríveis que comprovadamente funcionam, como Herbalife por exemplo.

Por incrível que pareça as pessoas não são retardadas. Depois de um tempo as pessoas nem se davam ao trabalho de abrir tais envelopes e os jogavam direto no lixo.

Bom, hora da indústria do spam revidar.

O revide dos spammers veio da forma mais vil, baixa & garantida de conseguir a atenção de uma pessoa.

Falo da forma que funciona pra todos os sexos:

Os spammers começaram a prometer dinheiro fácil na forma de negócios questionáveis e pomposos.

Mas isso também não estava dando certo, pois as pessoas eram preguiçosas demais pra iniciarem um negócio.

Pra resolver esse problema um spammer começou a imprimir cartas idênticas a cheques (inclusive eram nominais), pois dinheiro mais fácil que isso era impossível. Mas o detalhe é que no canto vinha impresso em letras minúsculas a frase “não negociáveis”, mais ou menos como aqueles dinheirinhos falsos que vinham nas bolachas com uma marca d’água “sem valor monetário” — porque afinal de contas não bastava a nota ser uma miniatura, eles assumiam que as pessoas seriam retardadas o bastante pra usarem aquilo como dinheiro de verdade.

Se você recebe um cheque de milhares de dólares em SEU NOME vai acabar lendo a carta em anexo, e a carta em anexo é pura propaganda. Depois que você lê a propaganda vai perceber que o cheque é de mentirinha.

Snif, snif…

Pronto! Os spammers te venceram! Você acabou lendo sobre a merda que eles estão vendendo! HA-HA

Venceram!… Venceram?… Mais ou menos.

Os spammers não contavam com a existência de doentes mentais não-diagnosticados vivendo normalmente entre nós, e que também recebem spam.

Gente como um cara chamado Combs (se teu nome é Sizenando ou Vandescleiton deve saber como ele se sentia na escola).

Combs chegou em casa, com certeza severamente embriagado, abriu a caixa dos correios, viu um “cheque” de 95 mil dólares em seu nome e tomou a decisão mais sensata possível: DESCONTÁ-LO!

Sim, ele ignorou o singelo aviso de que o cheque não era “negociável”, foi ao banco mais próximo e na maior cara de pau pediu pra descontarem o cheque, provavelmente usando a cantada que depois ficou famosa graças ao Leonardo DiCaprio: “Oi, querida. Quero descontar esse cheque e depois te chamar pra jantar”.

Agora o mais insano de tudo: o cheque foi descontado!

Alguns dias depois e os 95 mil ainda continuavam na conta de Combs. Excitado com seu triunfo sobre os spammers, Combs consultou a lei e descobriu que o cheque, mesmo com o aviso de “não negociável”, tecnicamente era considerado um cheque normal porque o spammer fez uma réplica perfeita do cheque com todos os dados necessários pra um eventual desconto.

AHHHHH, MAS SIFUDEU BUNITO!!

Os 95 mil que saíram da conta do espertinho spammer para a conta de Combs foram o suficiente pra levar o bastardo spammer à falência e deixar o mundo um pouco melhor.

Combs virou uma lenda nos EUA e hoje em dia dá até palestras de auto-ajuda. Ok, não me pergunte o que um cara que tomou a atitude de uma criança de 5 anos, e quase correu o risco de ser preso por tentar descontar um cheque falso, ensina em suas palestras.

Mas mesmo assim Combs derrotou o sistema opressor e sanguinário.

A história de Combs no NYT, a nova cortesã da mídia online.

Caso #2 — O cara que sacaneou a velha do Ebay

O Herói: Um cara chamado BadgerMatt.

A vitima: Uma velhinha.

O quê?

Ok, hora de outra representação artística:

BadgerMatt era um simples assalariado oprimido pelo sistema, que se viu privado do direito sagrado de assistir seu time jogar. Ele comprou ingressos pra ver seu time jogar, acontece que seu patrão não tinha os mesmos planos que ele, e entre ver o jogo e o emprego, Matt optou pelo 2ª (tudo em nome do vil metal).

Não podendo comparecer ao jogo de seu time favorito, ele resolveu que seria economicamente sensato revender os ingressos a outrem.

Nada mais justo, claro.

Pra isso recorreu ao Ebay, onde fez um leilão dos 4 ingressos para o jogo. No leilão ele deixou bem claro que o vencedor deveria retirar pessoalmente com ele os ingressos num prazo de 24 horas.

Em pouco tempo os ingressos foram arrematados por uma velha senhora pela bagatela de $600.

Ótimo pra Matt que não morreria com o prejuízo de 4 ingressos que dali a 24h não serviriam pra mais nada.

Claro que leiloar os ingressos no Ebay não era a única saída pra Matt, pois sempre teremos velhinhos cegos dispostos a fechar bons negócios por ai — a menos que você ache isso eticamente deplorável, claro.

Com o leilão encerrado, hora de entrar em contato com a vencedora pra acertar os detalhes da transação, afinal de contas a vencedora do leilão precisava se encontrar pessoalmente com Matt pra pegar os ingressos.

Sim. Aqui a vida resolve dar…

O Tapa

Depois de mandar vários e-mails, Matt recebe o nada promissor e-mail como resposta:

“Me desculpe, meu orçamento estourou e não poderei ficar com os ingressos. Bom jogo :) ”.

Nota: Repare o uso cínico, irônico e filhadaputistico do :)

Não se iluda, amigo, porque ela não estourou orçamento coisa nenhuma. Uma senhora de idade (vulgo “véia”) que se propôs a pagar $600 pra assistir a um jogo e depois declina, só pode estar fazendo isso pra sacanear. Maldade pura, amigo.

Nisso o prazo de 24h já estava pela boa e Matt tinha pouco mais de 12h antes do jogo começar, portanto não daria tempo de fazer outro leilão. Pra piorar sua vida, os demais vencedores do leilão tinham declinado a oferta dos ingressos (ninguém gosta de ser rejeitado).

Não sei você, mas correndo risco de morrer com os ingressos na mão eu teria apelado para:

(sim, eu sou um ser deplorável)

Mas não Matt, ele está acima de nós (eu), pobres mortais (ser desprovido de amor).

Mas calma, na vida pra cada tapa existe…

Uma Voadora Nas Costas

A maioria das pessoas teria tido ataques de raiva, e ficaria o final de semana todo amaldiçoando a velhinha, além de ficar a semana toda, e o resto da vida, contando pros outros a história de quando foi passado pra trás no Ebay por uma velhinha.

Mas nosso herói Matt está acima dessas pequenezas.

Matt, depois de reler alguns capítulos d’Arte da Guerra, calmamente ajeitou seus óculos e começou a traçar sua vingança.

Porque, veja bem, nenhum grande estrategista fica dando faniquitos diante de uma ofensiva devastadora do inimigo.

Você já viu Gary Kasparov perder o compasso quando está jogando e começa a perder?

Já ouviu falar que Napoleão deu piti quando a Batalha de Waterloo começou a ir pra pica?

O gatinho Maru perde a compostura quando fica preso em alguma caixa?

Não, não e não, amigo.

Só Hitler gostava de fazer barraco na hora do aperto e olha o que aconteceu com ele.

Grandes estrategistas reclinam a cadeira e pensam. Pensam, pensam e pensam até saírem com a solução perfeita pra foder o inimigo. Simples assim.

E pra azar de nossa velhinha, Matt era um puta estrategista.

Seu plano para se vingar da velha que cagou em seu leilão consistiu em duas partes. Duas partes deliciosamente bem arquitetadas e geniais, e depois dessa história você vai se sentir vingado por todas as vezes em que algum desgraçado te passou pra trás. Vai vendo.

Bom, na primeira parte, Matt, tranquilamente, abriu a página do Ebay e criou uma nova conta —  falsa, claro, com um nome falso. Com a nova conta criada, ele procurou o perfil da velhinha e enviou o seguinte e-mail:

“Olá, meu nome é Mini-Dexter e vi que você ganhou um leilão de 4 ingressos para o jogo BleBleBle vs Blablabla. Não pude participar do leilão mas queria muito levar meu pai e meus filhos a esse jogo. Te ofereço $1.000 pelos ingressos, embora provavelmente você tenha planos de ir ao jogo. Grato.”

HEHEHE

E adivinha só? Não, sério, adivinha o que vem em seguida.

Sim, amigo, a filha da puta da velha respondeu na hora(!):

“Olá. Eu quero $1.100 nos ingressos e não faço por menos. Me passe teu telefone”

Aham, aham, isso mesmo. A desgraçada vislumbrou a chance de comprar os ingressos do Matt por $600 e revendê-los ao mesmo Matt por $1.100. Só esqueceram de avisar a velha que o Matt pretendia ir buscar os ingressos com $1.100 no bolso e em cima de um unicórnio.

Sem saber que estava o tempo todo falando com o mesmo Matt, a velha, agora “arrependida” entra em contato com o Matt “trouxa”, aquele que ela tentou ferrar anteriormente:

“Olá. Mudei de idéia. Quero comprar teus ingressos por $600. Mas você deve trazê-los hoje em minha casa.”

Amigo, a cara de felicidade do velho Matt quando leu isso deve ter sido indescritível, como um fenômeno da natureza que acontece de 1.000 em 1.000 anos, o nascimento de uma Supernova ou a minha cara quando M. Shyamalan tiver uma morte lenta & dolorosa por ter me sacaneado inúmeras vezes.

Não consigo imaginar o quanto esse cara ficou feliz quando vislumbrou a chance de destruir estratégica & psicologicamente seu podre inimigo.

Pra isso ele botou a segunda parte do plano em ação, que consistia basicamente em responder o e-mail acima:

“Oi. Eu posso levar os ingressos até sua casa, mas agora quero um adicional de $20 pra bancar os custos de gasolina.”

(Você deve estar pensando no porquê ele não aumentou o preço dos ingressos, agora que tinha a véia pelos bagos? Se ele o fizesse certamente levantaria suspeitas, por isso só exigiu um adicional da gasosa. Por esse detalhe dá perceber que o Matt tem a ginga do bandido de cadeia, do malandro de rua. Eu também não teria mudado o preço do ingresso, já fiz muitas coisas das quais não me orgulho, portanto, não pergunte de onde tirei esse conhecimento)

Pronto. Vingança 97% concluída.

Matt pegou o endereço da velha e foi até sua casa entregar os ingressos. Sem surpresa. Ele entregou os ingressos e recebeu os $620 prometidos.

E obviamente quando tudo terminou ele deve ter feito a dancinha do Usain Bolt:

Que estátuas sejam erguidas e sonetos sejam compostos em nome de Matt, O Homem Que Nunca Foi Sacaneado no Ebay.

Manuscrito original com as memórias de Matt e o e-mail ensandecido da velha quando descobriu que foi se meter com um gênio do mal.

A indústria da bolacha recheada está morta, só falta fecharem o coiso

Tudo começou com esse post da Ju Dacoregio e esse outro post no Respeite Meus Mullets.

O que eu li nesses dois post me assustaram. E muito!

As autoras descrevem, muitas vezes com minúcias e detalhes chocantes, a atual derrocada no mercado de bolachas recheadas.

Eu não acreditei em nenhuma palavra do que elas disseram. Não, não acreditei mesmo!

Sabe por quê?

Porque eu advogo que sexo, pizza e bolacha recheada são bons até quando são ruins. Sabe como é, né: convicções. O que seria a vida sem nossas pequenas convicções? Eu tenho convicção na Evolução, no Big Bang. Assim como tenho convicção de que nunca haverá outra banda como os Beatles, de que Courtney Love matou Kurt Cobain e de que todo cara que ouve Coldplay teve, tem ou um dia terá várias experiências homossexuais.

São minhas convicções, cara! Fazer o quê?

Pois eu estava convicto que o mercado de bolacha recheada era incorruptível, inexpugnável, o bastião da moral e dos bons costumes onde capitalistas sanguessugas não ousariam botar as patas só pra extrair alguns tostões de pobres pais trabalhadores e estagiários.

Não, eles não poderiam fazer isso. Quem ousa explorar o mercado de bolachas recheadas, colocando bolachas horriveis pra serem vendidas a pobres crianças, seria também inescrupuloso o suficiente pra roubar e vender rins, o que daria muito mais dinheiro. Minha lógica é que pessoas sem alma lucrariam mais em outros mercados do que enganando pessoas com a venda de bolachas recheadas de péssima qualidade, e por essa conta, o mercado de bolachas estaria protegido pra sempre.

Pois bem, então era hora de uma prova de campo. Hora de provar minha convicção.

Munido de R$1 no bolso fui ao mercado única e exclusivamente pra comprar as famosas bolachas recheadas que custam menos de R$1 e que foram objeto dos posts da Ju e da Tati.

Chegando lá me deparo com algo que já começa a me dar calafrios, a abalar minha convicção. Várias marcas de bolacha recheada vendidas a menos de R$1! Várias! Confesso que pensei que não acharia nenhuma, que já tinham sido banidas do mercado pela ONU, pelo Bono Vox ou qualquer outra entidade que se preocupa conosco, pobres diabos. Encontrá-las já foi um mau presságio, e dos grandes. Encontrá-las em número era a anunciação de uma tragédia.

Eu achei que os malditos capitalistas respeitavam bolachas recheadas e a infância em jogo de milhões de crianças.

Mas não.

E meu mundo começava a ruir.

Veja bem, bolachas recheadas sendo vendidas por 1/4 do preço das lideres de mercado é um péssimo sinal. Pois te explico. Se fossem de qualidade minimamente respeitável isso afetaria o preço das concorrentes, mas se as concorrentes continuam vendendo ao mesmo preço é sinal de que eles não dão a mínima pra essas bolachas de 1 reaus. E se não dão é porque já experimentaram e sabem que as bolachas são horriveis!

Fiz todo esse raciocínio pra tentar me convencer de que “Ok, legal. O mercado de bolachas tá fudido, agora pega uma ceva e vai pra casa”. Mas não, meu espirito teimoso prevaleceu e eu tinha que experimentar uma daquelas bolachas pra ter certeza. Sabe, às vezes um produto é bom & barato. Isso existe ainda.

Aham…

Bom, pela Lei dos Extremos resolvi logo fazer o test-drive com uma bolacha de 69 cents. Bem menos de 1 reaus. Veja bem, uma bolacha de 1 reaus já é decadência total, uma de 69 cents é aparecer no programa do Ratinho pedindo exame de DNA! Uma bolacha recheada de 69 cents é o tipo de produto que se os marketeiros tivessem senso de humor venderiam junto com um testamento, ou então com uma advertência do Ministério da Saúde, quiçá até fotos de gente morrendo depois do consumo prolongado da dita bolacha.

A coisa é hardcore, amigo, vai vendo.

Chamarei a dita bolacha de ChocoTongo, um nome fictício, pois quem tem coragem de vender esse tipo de bolacha tem coragem de estabelecer vínculos com a máfia Russa e mandar me exterminar.

Bom, vamos às impressões.

Não falarei sobre a embalagem pois a Ju e a Tati já descreveram muito bem como são as embalagens de bolachas fuleiras — sério, leia os artigos delas (aqui & aqui), são ótimos.

Deixa eu falar sobre a bolacha em si, sobre minhas impressões gustativas de uma bolacha que, ousadamente, imprimiu a palavra DELICIOSA em letras gritantes na embalagem.

Deixa eu começar falando sobre o recheio.

Ah, o recheio.

Conceitualmente uma bolacha recheada consiste em 3 partes: 1 recheio e 2 duas bolachas.

Por alguma razão doentia o pessoal da Trakinas achou que seria sensato também adicionar olhinhos e um topete

(Como bem apontou a Tati Lopatiuk nesse outro artigo, algumas escolas de pensamento chamam a bolacha de “tampa” ou “coiso”, mas adotarei a nomenclatura clássica “bolacha”, embora considere seriamente o uso futuro do termo não-ortodoxo “coiso”)

É por ser tão conceitualmente simples e genial que eu sempre acreditei que seria impossível alguém fazer bolachas recheadas ruins. Onde errar? Não tem onde errar. No pior caso coloca uma pitada a mais de açúcar e pronto. Farinha e açúcar. Pronto. Não seria uma bolacha maravilhosa, mas seria tragável, muito melhor que a coisa imoral que descreverei a seguir.

Pois bem, falemos do recheio da ChocoTongo, que como você já deve ter presumido era de “sabor” “chocolate”.

Explicarei isso de forma anedótica.

Bem, como você não teve a felicidade de passar sua infância ao meu lado, então desconhece a minha poética forma de comer bolachas recheadas quando era criança pequena lá em Barbacena. Minha técnica era genial e simples: Eu comia o recheio e deixava as bolachas. Não, eu não jogava fora as bolachas. Eu as colocava de volta no pacote, uma cima da outra, só que sem o recheio.

HAHAHAHA. Eu sei, eu sei, você deve estar pensando “mas que filho da puta!”. Acredite-me, várias pessoas concordariam com você na época e muitas delas não hesitaram em exprimir tal opinião em voz alta. “AHHHHHHHH! Quem foi o filho da puta que comeu o recheio e deixou a bolacha no pacote?!?!” bradou inúmeras vezes meu pobre irmão, ludibriado pela minha astúcia e falta de respeito pelo próximo.

As pessoas viam e vêem isso como maldade, mas não era. Era altruísmo puro de minha parte. Eu não gostava da bolacha, só do recheio, então ao invés de jogar fora as bolachas, gerando desperdício, eu as devolvia pro pacote. Uma bolacha consiste de 3 partes, eu só comia o recheio e devolvia 2/3 daquilo que era meu de direito e as pessoas ainda reclamavam? Ora bolas, quão insensível uma pessoa pode ser?

Eu contei tudo isso só pra explicar que alguém na ChocoTongo usa a mesma técnica antes das bolachas saírem da fábrica. A sensação de ódio, desespero e decepção que meu irmão sentia quando mordia a bolacha e descobria que alguém (eu) já tinha comido o recheio, é a mesma que as pessoas que comem a ChocoTongo sentem.

Conceitualmente uma bolacha recheada precisa ter recheio. O problema é que pro pessoal da ChocoTongo esse conceito é abstrato. A bolacha recheada deles não tem recheio. Eles contam única e exclusivamente com um mindtrick que consiste na embalagem estar escrita “bolacha recheada” e teu cérebro simular aquilo quando você degusta a desprezível bolacha ChocoTongo.

Lembra do cara de Matrix comendo o filé e dizendo que tudo aquilo só existia na cabeça dele mas que mesmo assim continuava a achar aquilo fabuloso? É o mesmo truque usado pela ChocoTongo!

Falo desse cara. A cena que inspirou a ChocoTongo

A ChocoTongo pode se orgulhar de ter criado a primeira bolacha com recheio quântico. Sim, dá pra contar nos dedos as moléculas de recheio da maldita bolacha.

Mas o inexistente recheio da ChocoTongo, amigo, é só 1/3 do problema. Pois ainda tenho que falar sobre a bolacha (doravante “coiso”).

E, acredite em mim, amigo, falar desse assunto é deverás desconfortável pra mim. Sério, é como relembrar alguma morte trágica na família ou então de todas as vezes em que eu acreditei no Bono falando que o próximo disco do U2 seria um novo Achtung Baby, só pra depois descobrir que era a mesma merda que eles vem lançando nos últimos 20 anos.

Como não quero relembrar a desprazerosa experiência que tive ao degustar a bolacha ChocoTongo, deixo abaixo a integra da carta que mandei ao fabricante logo após a fatídica tarde de domingo em que tive a fatídica idéia de comprar a quase letal bolacha ChocoTongo:

Olá.

Me chamo Geovani e recentemente tive a oportunidade de experimentar um de vossos “produtos”, a ChocoTongo.

Bom, minha experiência não foi nem um pouco agradável — diria que pelo contrário, foi bem agonizante.

Pra ser honesto, juro que compilei uma lista enorme de palavrões para xingar vocês todos pelos próximos 6 meses. Sério, a lista de xingamentos era enorme, suficiente pra amaldiçoar todos os envolvidos na fabricação dessa arma de desprazeres em massa chamada ChocoTongo. Vocês matam as esperanças que as pessoas ainda possuem na humanidade, sabia? Sério.

Se os nazistas tivessem mandado todos vocês pra câmara de gás aposto que o resultado em Nuremberg teria sido beeeeeeeem diferente. Aposto.

Mas como sou um cara prático e objetivo não vou dedurá-los pra ANVISA, ou pra Policia Federal. Na, não quero encrenca.

O objetivo de meu e-mail é outro. Quero falar de negócios (sim, eu sou mais inescrupuloso que vocês).

Com base no meu paladar enquanto degustava a impalatável bolacha ChocoTongo, de vossa fabricação, pude constatar, com 97% de certeza, uma altíssima concentração de areia em vosso produto.

Calma! Calma! Como já falei, não vou avisar a Anvisa.

Porém, em troca do meu silêncio gostaria que vocês me informassem a quantidade exata de areia em cada bolacha ChocoTongo, pois pelos meus cálculos se a quantidade exceder 95% por unidade, sai mais barato eu usar ChocoTongo ao invés de comprar areia de construção pra fazer uma pequena reforma que estou planejando.

Além disso, gostaria também de saber se a areia que vocês usam na fabricação da ChocoTongo é aquela de praia ou a de construção. Pois, diferente do Sérgio Naia, eu pretendo continuar morando na casa após a reforma e a última coisa que eu quero é morrer soterrado, e depois aparecer pelado nos jornais com um sarrafo atravessando meu corpinho de Tony Ward.

Grato.

Aguardo resposta.

P.S.: Já pensaram em gastar toda a verba publicitária de vocês (uns 50 reais, calculo) numa “mega” campanha no Orkut? Sabe, atingir o público-alvo é a coisa mais importante no marketing de qualquer negócio. Não precisa me agradecer pela idéia, eu só quero o bem da humanidade.

Bom, até agora não responderam meu e-mail. E agora? Preciso dar meu parecer pro pedreiro até sexta.